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Vol. 31. Núm. 10.Outubro 2012
Páginas 629-686
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Vol. 31. Núm. 10.Outubro 2012
Páginas 629-686
Artigo Original
DOI: 10.1016/j.repc.2012.07.002
Open Access
Síndrome metabólica em trabalhadores de um hospital universitário
Metabolic syndrome in workers in a university hospital
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Cássia Eliana Basei Rossaa,??
Autor para correspondência
cassiabrossa@hotmail.com

Autor para correspondência.
, Paulo Ricardo Avancini Caramoria,c, Waldomiro Carlos Manfroia,b
a Programa de Pós-Graduação em Cardiologia e Ciências Cardiovasculares, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, Brasil
b Serviço de Cardiologia, Hospital de Clínicas de Porto Alegre, UFRGS, Porto Alegre, Brasil
c Centro de Pesquisas Cardiovasculares, Hospital São Lucas, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), Porto Alegre, Brasil
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Estatísticas
Figuras (2)
Tabelas (3)
Tabela 1. Caracterização da amostra
Tabela 2. Associação univariada entre a síndrome metabólica e as variáveis em estudo
Tabela 3. Análise de regressão logística múltipla para avaliar fatores associados à síndrome metabólica
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Resumo
Introdução

A síndrome metabólica (SM) é um importante problema de saúde, e tem consequências na economia de empresas. Assim, o ambiente de trabalho é um cenário importante para prevenção primária dos fatores de risco para as doenças cardiovasculares.

Objetivo

Determinar a prevalência da SM e de variáveis relacionadas ao seu desenvolvimento em trabalhadores hospitalares.

Métodos

Estudo transversal com 740 trabalhadores de um hospital universitário de grande porte. Foram avaliadas variáveis socioeconómicas, medidas antropométricas e de pressão arterial e exames laboratoriais. A SM foi caracterizada consoante os critérios da International Diabetes Federation.

Resultados

Dos 740 trabalhadores 72,4% eram do sexo feminino, com idade média 34,9 ± 9,5, sendo 27,8% do turno de trabalho da manhã, 20,3% do turno da tarde, 34,1% do turno integral e 17,8% do turno noturno. Com relação à escolaridade, 86,6% possuíam ensino médio a superior. A circunferência abdominal foi elevada em 55,4%. A prevalência total da SM foi de 12,8%, sendo 16,2% do sexo masculino e 11,6% do feminino. A regressão logística indicou associação independente da SM com as variáveis: ensino fundamental, tempo de trabalho > 10 anos, turno de trabalho integral e faixa etária.

Conclusão

A SM diagnosticada foi afetada pela idade, nível educacional, turno de trabalho e avanço do tempo de trabalho. O trabalhador hospitalar não é diferente de outras populações e também necessita receber estímulos para tomar decisões preventivas que modifiquem seu comportamento para os fatores de risco cardiovasculares.

Palavras-chave:
Síndrome metabólica
Prevalência
Fatores de risco
Trabalhadores
Abstract
Introduction

Metabolic syndrome (MS) is a major health problem, and has economic effects on enterprises. The workplace is thus an important environment for primary prevention of risk factors for cardiovascular disease.

Objective

To determine the prevalence of MS and variables related to its development in hospital workers.

Methods

We performed a cross-sectional study of 740 workers in a large university hospital. Socioeconomic variables, anthropometric and blood pressure measurements, and laboratory exams were analyzed. MS was defined according to the criteria of the International Diabetes Federation.

Results

Of the 740 workers, 72.4% were female and mean age was 34.9±9.5 years; 27.8% worked the morning shift, 20.3% the afternoon shift, 34.1% office hours, and 17.8% the night shift. As to educational level, 86.6% had finished high school or college. Waist circumference was high in 55.4%. Overall MS prevalence was 12.8%, 16.2% in males and 11.6% in females. Logistic regression analysis showed an independent association between MS and the following variables: elementary education, period of employment >10 years, office hours shift, and age group.

Conclusion

A diagnosis of MS was affected by age, educational level, work shift, and prolonged period of employment. Hospital workers do not differ from other populations and also need stimuli to make preventive changes to their behavior to modify cardiovascular risk factors.

Keywords:
Metabolic syndrome
Prevalence
Risk factors
Workers
Texto Completo
Introdução

A sociedade moderna tem vivenciado, nas últimas décadas, um dinâmico e complexo processo de mudanças nos padrões alimentares e nutricionais, nos perfis demográfico, socioeconómico e epidemiológico, que vêm acarretando intensas modificações no quadro das doenças crónicas, destacando-se as doenças cardiovasculares (DCV)1.

A síndrome metabólica (SM) representa a anormalidade metabólica mais comum da atualidade, sendo a maior responsável por eventos cardiovasculares na população2, estando associada com aumento significativo de mortalidade cardiovascular3. A relevância clínica da SM é identificar indivíduos em tendência de DCV e diabetes mellitus (DM) tipo 2, assim possibilitando intervenções de estilo de vida preventivas4. A obesidade contribui para a hipertensão, níveis elevados de colesterol total, baixos níveis de lipoproteína de alta densidade (HDL-c) e hiperglicemia, que estão associados a um maior risco cardiovascular5.

A população ativa representa uma grande percentagem da população geral. Os indivíduos que trabalham permanecem a maior parte do seu dia, no local de trabalho. As empresas são afetadas pela redução da produtividade e aumento dos custos causados pelas doenças crónicas e licenças médicas dos seus colaboradores. Os funcionários obesos, por exemplo, apresentam maior limitação física no trabalho, hipertensão, DM tipo 2, dislipidemia e SM6. O local de trabalho pode ser considerado como um espaço privilegiado para o ratreio de doenças crónicas, possibilitando a realização de programas de prevenção com base na proximidade de serviços médicos ocupacionais.

O ambiente de hospital agrega e propicia a difusão de informações sobre qualidade de vida e fatores de risco para as DCV. Os trabalhadores hospitalares recebem influência do meio e também exercem papel de educadores.

Há escassez de dados relativos à prevalência da SM, entre trabalhadores hospitalares. O objetivo deste estudo é avaliar a frequência da SM nesta população e identificar as variáveis relacionadas.

MétodosAmostra

Foi realizado um estudo transversal, em 740 trabalhadores que realizam o exame médico anual num hospital universitário de grande envergadura, com idades entre 18 e 69 anos. A todos os indivíduos foi apresentado um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, assinado em caso de concordância. O estudo foi aprovado pelo Comité de Ética em Pesquisa do Complexo Hospitalar da Santa Casa de Porto Alegre. Dos 5336 trabalhadores da instituição, 920 (17,2%) foram chamados para realizar o exame médico anual, no período do estudo, destes, 740 foram analisados. Os trabalhadores foram sistematicamente chamados no mês de seu nascimento. Não foram incluídos no estudo gestantes e menores de 18 anos (Figura 1).

Figura 1.
(0,08MB).

Fluxograma dos participantes do estudo.

Protocolo do estudo

Os participantes do estudo responderam a um questionário aplicado pelo entrevistador avaliando as seguintes variáveis socioeconómicas: cor de pele (dicotómica branco / não branco, autodeclarada), nível de escolaridade (ensino fundamental, ensino médio e ensino superior incompleto ou completo), turno de trabalho (manhã 6h/dia, tarde 6h/dia, integral 8h/dia e noturno 12h em dias alternados), tempo de trabalho na instituição (≤ 1 ano, 1-3 anos, 3-5 anos, 5-10 anos > 10 anos) e grupo profissional (operacional, assistencial e administrativo). Também foram documentadas variáveis clínicas e comportamentais como hipertensão, diabetes, dislipidemia, cardiopatia, acidente vascular cerebral (AVC), tabagismo, consumo de bebidas alcoólicas e atividade física.

Foram considerados tabagistas, os que faziam uso de fumo, independentemente da quantidade de cigarros por dia, ex-fumadores os que não fumam há pelo menos 6 meses, ou não fumadores os que nunca fumaram. O uso de álcool foi considerado positivo em indivíduos que bebiam qualquer tipo de bebida alcoólica independentemente da quantidade. Foram considerados sedentários os participantes que realizam exercício físico menos de 2 vezes por semana, durante 30 min.

Avaliação bioquímica

O perfil lipídico foi avaliado pela determinação do colesterol total (CT), do HDL-c e dos triglicerídeos (TG), após jejum de 12 h. A lipoproteína de baixa densidade (LDL-c) foi calculada pela fórmula de Friedewald7: LDL-c = CT – HDL-c – TG/5. O colesterol total, os triglicerídeos e a glicose foram doseados pelo método enzimático automatizado e o HDL-c pelo enzimático colorimétrico direto, com equipamento automatizado ADVIA® 1650 (Siemens, Tóquio, Japão). Os participantes foram orientados para não realizarem nenhuma atividade física vigorosa e para não ingerirem bebida alcoólica nas 24 horas antecedentes à colheita de sangue.

Avaliação antropométrica e clínica

A pressão arterial foi aferida com esfigmomanómetro da marca BD®, calibrado, na posição sentada com o braço apoiado sobre uma superfície firme, após 5 a 10 min de repouso. Nova aferição foi realizada após 1 a 2 min. Foi registada a média dos 2 valores encontrados.

Na determinação da circunferência abdominal, solicitou-se ao trabalhador que permanecesse em pé, respirando normalmente e sem roupa na região do abdómen, localizando-se a circunferência abdominal no ponto médio entre o rebordo costal e a crista ilíaca, com uso de fita métrica de 1,50 m graduada a cada 0,5cm, não distensível, porém flexível. A estatura e o peso corporal foram aferidos com balança antropométrica mecânica da marca Filizola®, com capacidade máxima de 150kg, divisão para pesagem de 100g e escala antropométrica com altura máxima de 2 m e graduação de 0,5cm. Para a determinação do peso, solicitou-se ao trabalhador que permanecesse com roupas leves e descalço. O índice de massa corporal (IMC) foi calculado a partir do peso dividido pela estatura ao quadrado (IMC = Peso (kg) / [Estatura (m)]2). De acordo com o valor do IMC, os trabalhadores foram classificados conforme os critérios da Organização Mundial da Saúde (OMS)8, em normal (< 25 kg/m2), sobrepeso (25 a 29,9 kg/m2) e obeso (≥ 30 kg/m2).

Critério de diagnóstico da síndrome metabólica

A síndrome metabólica foi definida usando o critério estabelecido pela International Diabetes Federation (IDF)9. A classificação foi baseada na obesidade abdominal (circunferência abdominal: homens ≥ 94cm e mulheres ≥ 80cm), associada à presença de 2 ou mais dos componentes que se seguem: níveis de triglicerídeos (≥ 150mg/dl), HDL-c (homens < 40mg/dl e mulheres < 50mg/dl ou uso de lipolipemiantes), pressão arterial (≥ 130 / 85mmHg ou uso de anti-hipertensivos) e glicemia em jejum (≥ 100mg/dl ou medicamento para diabetes).

Análise estatística

Para o cálculo da amostra, utilizamos referências de estudos internacionais, onde se observa uma prevalência aproximada de SM de 25% baseadas no estudo da população americana10 e mexicana11. Considerando uma margem de erro de 4% e um nível de confiança de 95%, seriam necessários no mínimo, 451 indivíduos para estimar a prevalência da SM e de variáveis relacionadas com o seu desenvolvimento. Este cálculo foi realizado no programa PEPI (Programs for Epidemiologists) versão 4.0.

As variáveis quantitativas foram expressas como média e desvio padrão e as categóricas como frequência absoluta e relativa. Para avaliar as associações entre as variáveis categóricas, o teste do qui-quadrado de Pearson foi aplicado e complementado pelo teste dos resíduos ajustados. O teste T de Student foi utilizado para comparar variáveis contínuas12.

Para controlar fatores de confusão e avaliar possíveis fatores associados para a presença da SM, a análise de Regressão Logística foi aplicada. Foram inseridas no modelo as variáveis que apresentaram valores de «p» menor que 0,20 na análise univariada13. Foram excluídas da análise multivariada as variáveis que são constituintes da SM (IMC, CT, hipertensão, dislipidemia, CT) e aquelas de que a SM é preditor (diabetes e AVC), devido à colinearidade em relação às demais variáveis. O nível de significância estatística considerado foi de 5% (p ≤ 0,05). Os testes foram realizados com o software Statistical Package for Social Sciences (SPSS) 17.0 para Windows.

Resultados

A Tabela 1 mostra as características dos indivíduos estudados. A amostra foi constituída por 740 trabalhadores, sendo 72,4% de mulheres, com idade média de 34,9 anos. A maioria composta por brancos (80,1%), com ensino médio a ensino superior (86,6%). Relativamente ao turno de trabalho, 27,8% trabalhavam no turno da manhã, 20,3% no turno da tarde, 34,1% no turno integral e 17,8% no turno noturno. O grupo profissional de assistência apresentava a maioria dos trabalhadores (58,4%). Quanto ao tempo de trabalho, 16,2% trabalhavam ≤ 1 ano, 27% de 1-3 anos, 13,1% de 3-5 anos, 21,2% de 5-10 anos e 22,4% > 10 anos. A classificação do IMC mostrou excesso de peso em 50,1% da amostra. Quanto aos hábitos de vida, 66,6% referiu ingestão de bebida alcoólica, apenas 10% eram tabagistas e 64,7% não realizavam exercício físico regularmente. Quando comparados homens e mulheres, observou-se que a maioria dos homens (50%) trabalhava no turno integral (8h/dia) e das mulheres (30,2%) no turno da manhã (6h/dia). Quanto ao grupo profissional, 43,1% dos homens trabalhavam no operacional e 68,7% das mulheres no de assistência. Em relação à classificação do IMC mostrou que mais da metade dos homens apresentavam excesso de peso (69,3%) e 53,4% das mulheres eram eutróficas.

Tabela 1.

Caracterização da amostra

Variável  Amostra total (n = 740)  Homens (n = 204; 27,6%)  Mulheres (n = 536; 72,4%) 
Idade (anos)*  34,9 ± 9,5  35,1 ± 10,5  34,9 ± 9,1  0,807†† 
Faixa etária – n (%)
18-25  128 (17,3)  45 (22,1)**  83 (15,5)  0,012 
26-40  424 (57,3)  104 (51,0)  320 (59,7)**   
41-50  128 (17,3)  31 (15,2)  97 (18,1)   
> 50  60 (8,1)  24 (11,8)**  36 (6,7)   
Etnia – n (%)
Branco  593 (80,1)  159 (77,9)  434 (81,0)  0,339 
Não-branco  147 (19,9)  45 (22,1)  102 (19,0)   
Nível de escolaridade – n (%)
Ensino Fundamental  99 (13,4)  58 (28,4)**  41 (7,6)  < 0,001 
Ensino Médio  445 (60,1)  104 (51,0)  341 (63,6)**   
Ensino Superior  196 (26,5)  42 (20,6)  154 (28,7)**   
Turno de trabalho – n (%)
Manhã (6 h/dia)  206 (27,8)  44 (21,6)  162 (30,2)**  < 0,001 
Tarde (6 h/dia)  150 (20,3)  27 (13,2)  123 (22,9)**   
Integral (8 h/dia)  252 (34,1)  102 (50,0)**  150 (28,0)   
Noturno (12 h/dias alternados)  132 (17,8)  31 (15,2)  101 (18,8)   
Grupo profissional – n (%)
Operacional  138 (18,6)  88 (43,1)**  50 (9,3)  < 0,001 
Assistencial  432 (58,4)  64 (31,4)  368 (68,7)**   
Administrativo  170 (23,0)  52 (25,5)  118 (22,0)   
Tempo de trabalho – n (%)
≤ 1 ano  120 (16,2)  38 (18,6)  82 (15,3)  0,189 
1-3 anos  200 (27,0)  60 (29,4)  140 (26,1)   
3-5 anos  97 (13,1)  19 (9,3)  78 (14,6)   
5-10 anos  157 (21,2)  47 (23,0)  110 (20,5)   
> 10 anos  166 (22,4)  40 (19,6)  126 (23,5)   
Peso (kg) – Média ± DP*  68,3 ± 14,5  77,6 ± 14,4  64,7 ± 12,9  < 0,001†† 
Altura (m) – Média ± DP*  1,62 ± 0,09  1,71 ± 0,07  1,59 ± 0,06  < 0,001†† 
IMC (kg/m2) – Média ± DP*  25,9 ± 4,80  26,4 ± 4,4  25,6 ± 5,0  0,041†† 
Classificação do IMC – n (%)
Normal (< 25 kg/m2369 (49,9)  83 (40,7)  286 (53,4)**  0,003 
Sobrepeso (25 a 29,99 kg/m2248 (33,5)  87 (42,6)**  161 (30,0)   
Obesidade (≥ 30 kg/m2123 (16,6)  34 (16,7)  89 (16,6)   
Colesterol Total – Média ± DP*  182,9 ± 37,3  178,1 ± 36,6  184,8 ± 37,4  0,029†† 
Tabagismo – n (%)
Sim  75 (10,1)  30 (14,7)**  45 (8,4)  0,027 
Ex-fumante  119 (16,1)  35 (17,2)  84 (15,7)   
Não fumante  546 (73,8)  139 (68,1)  407 (75,9)**   
Ingestão de bebida alcoólica – n (%)  493 (66,6)  153 (75,0)  340 (63,4)  0,004 
Atividade física – n (%)  261 (35,3)  93 (45,6)  168 (31,3)  < 0,001 

IMC: índice de massa corporal.

*

Valores expressos como média ± DP

**

Associação estatisticamente significativa pelo teste dos resíduos ajustados (p < 0,05).

Valor obtido pelo teste do qui-quadrado de Pearson

††

Teste T de Student.

A Figura 2 retrata os componentes da SM em relação ao género. O diagnóstico da SM foi confirmado em 95 indivíduos (12,8%) da amostra, sendo 16,2% nos homens e 11,6% nas mulheres (p = 0,121). Dentre os componentes da SM, a circunferência abdominal elevada estava presente em pouco mais da metade dos indivíduos (55,4%), com predomínio do sexo feminino (63,1%) versus 35,3%; p < 0,001). O HDL-c baixo foi o segundo componente mais frequente apresentado nos participantes do estudo (23,8%), e a glicemia de jejum estava elevada em 5,4% da amostra.

Figura 2.
(0,08MB).

Associação do género com os componentes da síndrome metabólica

CA: circunferência abdominal elevada; GLI: glicemia jejum elevada; HDL-c: lipoproteína de alta densidade baixo; TG: triglicerídeo elevado; PA: pressão arterial sistólica/diastólica elevada; SM: síndrome metabólica. *p < 0,001.

A Tabela 2 descreve a análise univariada, que evidenciou associação estatisticamente significante (p < 0,05) entre a presença de SM e faixa etária, principalmente a partir dos 41 anos e ensino fundamental. Em relação ao turno de trabalho, observou-se que os trabalhadores que trabalhavam no turno integral apresentaram maior associação com a SM e aqueles que não tinham SM tiveram maior associação com o turno da tarde. Verificou-se ainda, que a presença de SM relacionou-se com o grupo profissional operacional, tempo de trabalho > 5 anos, excesso de peso e ex-fumador. Porém, os fatores que permaneceram associados independentemente à SM, depois de controladas as variáveis de confusão foram a faixa e etária, o ensino fundamental, o turno de trabalho integral, e o tempo de trabalho > 10 anos (Tabela 3). Não houve associação com a SM o grupo profissional operacional (p = 0,461). Quando avaliados como variáveis contínuas, para cada ano de idade a probabilidade de apresentar SM aumenta em 5% (OR = 1,05; 1,01 – 2,08; p = 0,006) e para cada um ano de trabalho aumenta em 1% (OR = 1,01; 1,00 – 1,01; p = 0,010).

Tabela 2.

Associação univariada entre a síndrome metabólica e as variáveis em estudo

Variáveis  Síndrome Metabólica
  Sim (n = 95)  Não (n = 645)   
Idade, média ± DP Faixa etária – n (%)  42,7±10,6  33,8±8,8  < 0,001†† 
18-25  2 (2,1)  126 (19,5)**  < 0,001 
26-40  42 (44,2)  382 (59,2)**   
41-50  26 (27,4)**  102 (15,8)   
> 50  25 (26,3)**  35 (5,4)   
Sexo – n (%)
Masculino  33 (34,7)  171 (26,5)  0,121 
Feminino  62 (65,3)  474 (73,5)   
Etnia – n (%)
Branco  76 (80,0)  517 (80,2)  1,000 
Não-branco  19 (20,0)  128 (19,8)   
Nível de escolaridade – n (%)
Ensino Fundamental  32 (33,7)**  67 (10,4)  < 0,001 
Ensino Médio  49 (51,6)  396 (61,4)   
Ensino Superior  14 (14,7)  182 (28,2)**   
Turno de trabalho – n (%)
Manhã (6h/dia)  20 (21,1)  186 (28,8)  0,002 
Tarde (6h/dia)  9 (9,5)  141 (21,9)**   
Integral (8h/dia)  44 (46,3)**  208 (32,2)   
Noturno (12h/dias alternados)  22 (23,2)  110 (17,1)   
Grupo profissional – n (%)
Operacional  33 (34,7)**  105 (16,3)  < 0,001 
Assistencial  46 (48,4)  386 (59,8)**   
Administrativo  16 (16,8)  154 (23,9)   
Tempo de trabalho – n (%)
≤ 1 ano  8 (8,4)  112 (17,4)**  < 0,001 
1-3 anos  11 (11,6)  189 (29,3)**   
3-5 anos  6 (6,3)  91 (14,1)**   
5-10 anos  28 (29,5)**  129 (20,0)   
> 10 anos  42 (44,2)**  124 (19,2)   
Classificação do IMC – n (%)
Normal (< 25 kg/m24 (4,2)  365 (56,6)**  < 0,001 
Sobrepeso (25 a 29,99 kg/m246 (48,4)**  202 (31,3)   
Obesidade (≥ 30 kg/m245 (47,4)**  78 (12,1)   
Tabagismo – n (%)
Sim  10 (10,5)  65 (10,1)  0,029 
Ex-fumador  24 (25,3)**  95 (14,7)   
Não fumador  61 (64,2)  485 (75,2)**   
Ingestão de bebida alcoólica – n (%)  57 (60,0)  436 (67,6)  0,177 
Atividade física – n (%)  30 (31,6)  231 (35,8)  0,489 
Cardiopatia – n (%)  6 (6,3)  10 (1,6)  0,010††† 
AVC – n (%)  1 (1,1)  2 (0,3)  0,338††† 

AVC: acidente vascular cerebral; IMC: índice de massa corporal.

Valor obtido pelo teste do qui-quadrado de Pearson.

††

Teste T de Student.

†††

Valor obtido pelo teste exato de Fisher.

**

Associação estatisticamente significativa pelo teste dos resíduos ajustados (p < 0,05).

Tabela 3.

Análise de regressão logística múltipla para avaliar fatores associados à síndrome metabólica

Variáveis  OR (IC 95%)* 
Faixa etária
18-25  1,00   
26-40  4,43 (1,01-19,0)  0,048 
41-50  5,46 (1,13-26,5)  0,035 
> 50  10,9 (2,13-56,0)  0,004 
Sexo
Masculino  0,97 (0,53-1,78)  0,926 
Feminino  1,00   
Nível de escolaridade
Ensino Fundamental  3,52 (1,45-8,54)  0,005 
Ensino Médio  1,39 (0,72-2,69)  0,330 
Ensino Superior  1,00   
Turno de trabalho
Tarde (6 h/dia)  1,00   
Manhã (6 h/dia)  1,47 (0,62-3,47)  0,382 
Integral (8 h/dia)  2,41 (1,02-5,69)  0,045 
Noturno (12 h/dias alternados)  2,25 (0,94-5,36)  0,068 
Grupo profissional
Operacional  1,39 (0,58-3,36)  0,461 
Assistencial  1,25 (0,60-2,57)  0,555 
Administrativo  1,00   
Tempo de trabalho
≤ 1 ano  1,00   
1-3 anos  1,12 (0,41-3,06)  0,823 
3-5 anos  1,04 (0,36-3,33)  0,942 
5-10 anos  1,99 (0,81-4,87)  0,134 
> 10 anos  2,69 (1,07-6,77)  0,036 
Tabagismo
Sim  0,95 (0,43-2,10)  0,899 
Ex-fumante  1,46 (0,81-2,64)  0,212 
Não fumante  1,00   
Ingestão de bebida alcoólica
Sim  0,78 (0,48-1,28)  0,321 
Não  1,00   

IC 95%: intervalo com 95% de confiança: OR: odds ratio.

*

As categorias que receberam o valor um representam as de referência para o cálculo do odds ratio.

Discussão

Neste estudo, a prevalência da SM em trabalhadores hospitalares foi de 12,8%. Após a análise ajustada dos fatores de risco para a SM, a faixa etária, o ensino fundamental, o turno de trabalho integral e o tempo de trabalho > 10 anos foram os que estiveram significativamente associados a um maior risco da SM.

Utilizou-se neste estudo o conceito da IDF para definição da SM, a prevalência total da SM na amostra estudada foi de 12,8%, sendo 16,2% nos homens e 11,6% nas mulheres, sem haver diferença entre os géneros. Nos Estados Unidos14, uma pesquisa entre 3601 indivíduos, com idade variando entre 20 e 70 anos, a prevalência da SM foi de 34,5% pelo conceito do National Cholesterol Education Program (NCEP), Adult Treatment Panel III (NCEP-ATP III) (33,7% entre os homens e 35,4% entre as mulheres), e de 39% pela IDF (39,9% nos homens e 38,1% nas mulheres). Em Portugal15, um estudo com 16 856 indivíduos, mostrou uma prevalência da SM de 27,5% (28,7% em mulheres e 26,0% em homens) pelo critério do NCEP-ATP III.

Em um estudo realizado com trabalhadores da área da saúde, na Turquia16, a prevalência da SM foi 5,2% entre as mulheres e 12,7% entre os homens, aplicando o critério do NCEP-ATP III. Numa pesquisa catarinense na cidade de Florianópolis, que envolveu trabalhadores de um hospital universitário17 utilizando o critério da IDF, a prevalência da SM foi de 21,9% entre as mulheres e 19,4% entre os homens. Numa fábrica de automóveis na Espanha18, a prevalência da SM entre os 7256 trabalhadores estudados, com idade entre 20 a 60 anos, foi 10,2% (8,7% no sexo masculino e 3% no feminino), com o critério do NCEP-ATP III. Em 2008, 992 trabalhadores ferroviários, na Índia19 com idade de 30 a 60 anos, identificando prevalência da SM pelos critérios do NCEP-ATP III de 27,03% (27,3% nas mulheres e 26,7% nos homens). Num estudo alemão20, com trabalhadores da indústria química, foi utilizado o critério do IDF, para o conceito da SM, que estava presente em 23,5% dos trabalhadores, sendo maior em homens (30 versus 9,7%). Na literatura, encontramos ampla variação na prevalência da SM em trabalhadores, provavelmente por causa do perfil da população estudada e da definição da SM adotada.

Na amostra estudada a faixa etária e o tempo de trabalho > 10 anos foram significativamente associados a um maior risco da SM. A prevalência da SM na faixa etária de 41 a 50 anos foi de 27,4% e acima de 50 anos foi de 26,3%. Na população americana, a prevalência da SM na faixa etária de 20 a 69 anos foi de 23,7%, sendo que, entre 20 a 29 anos, a prevalência foi de 6,7%, aumentando de forma progressiva até 43,5% na faixa etária de 60 a 69 anos10. Um estudo realizado de base populacional na cidade de Vitória, ES21, verificou-se um incremento da prevalência da SM com o aumento da idade, resultando em 48,3% na faixa etária de 55 a 64 anos. Num trabalho catarinense na cidade de Florianópolis17, que envolveu trabalhadores de um hospital universitário a prevalência da SM na faixa etária de 40 a 49 foi de 67,5%. Numa amostra de trabalhadores ferroviários, na Índia19, mostrou que a SM foi significativamente associada ao aumento da idade acima de 45 anos. Um estudo realizado em trabalhadores municipais de Izmir, na Turquia16, mostrou associação significativa com a SM nos trabalhadores que trabalhavam há mais 10 anos no município (p = 0,009). O avanço da idade e o tempo de trabalho, em conjunto com o estilo de vida moderno dessas populações, podem alterar os hábitos alimentares, além do acesso a bens que reduzem a demanda de esforço físico para a realização das suas tarefas quotidianas e no trabalho, contribuem para o desequilíbrio do balanço energético e ganho de peso corporal.

Os trabalhadores analisados nesta pesquisa com o menor nível educacional, o ensino fundamental, apresentaram associação significativa à SM. Um estudo realizado em profissionais de escritório em Bangkok, Tailândia22, mostrou maior frequência da SM nos trabalhadores que possuíam ensino médio. Um maior nível de educação, acesso às informações, como hábito de ler jornais, revistas e ver programas educacionais, podem influenciar nas escolhas alimentares, proporcionando um melhor hábito de vida.

No presente estudo foi observado que os profissionais que trabalhavam no turno integral apresentaram associação significativa à SM e uma tendência de aumento da SM nos que trabalhavam no turno noturno. Numa pesquisa realizada numa fábrica em Buenos Aires23, os trabalhadores foram avaliados para a presença da SM conforme o turno de trabalho diurno (8h/dia) e turno rotativo (2 dias de trabalho noturno, 3 dias de descanso). A prevalência da SM mostrou maior frequência entre os trabalhadores do turno rotativo (17,2 versus 10,7% p < 0,005). Num estudo prospetivo, com 1529 trabalhadores de várias empresas belgas24, a prevalência da SM nos trabalhadores rotativos foi maior do que nos trabalhadores de turnos diurnos (32,7 versus 21,6%). Os trabalhadores que permaneceram um maior período do seu dia no trabalho apresentam um consumo de alimentos de alto valor calórico e baixo valor nutritivo. As jornadas de trabalho são extensas, com predomínio de sedentarismo.

Limitações do estudo

Neste trabalho foi realizado um estudo transversal. Estes tipos de estudos estabelecem relações causais por não provarem a existência de uma sequência temporal entre exposição ao fator e o subsequente desenvolvimento da doença. Quando utilizamos acordo com suas indicações, vantagens e limitações podem oferecer valiosas informações para o avanço do conhecimento científico.

Conclusão

Encontramos em trabalhadores de hospital que a SM diagnosticada foi afetada pela idade, nível educacional, turno de trabalho e avanço do tempo de trabalho. O trabalhador hospitalar necessita receber estímulos, para tomar decisões preventivas que modifiquem seu comportamento para os fatores de risco cardiovasculares.

Conflito de interesses

Os autores declaram não haver conflito de interesses.

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