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Disponível online em 3 de agosto de 2026

Cooperar para cuidar: cardiologia entre Portugal e Moçambique

Cooperating to care: cardiology between Portugal and Mozambique
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Rui Plácidoa,b,
Autor para correspondência
placidorui@gmail.com

Autor para correspondência.
, Bebiana Fariac, António Piresd, Ana Filipa Amadore, Diogo Ferreiraf, José Ricardog, Jorge Moreirae, Víctor Gilh
a Serviço de Cardiologia, Unidade Local de Saúde de Santa Maria, Portugal
b Centro de Investigação em Mecanismos de Doença, Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, Lisboa, Portugal
c Serviço de Cardiologia, Unidade Local de Saúde do Alto Ave, Portugal
d Serviço de Cardiologia Pediátrica, Unidade Local de Saúde de Coimbra, Portugal
e Serviço de Cardiologia, Unidade Local de Saúde de São João, Portugal
f Serviço de Cardiologia, Unidade Local de Saúde Gaia e Espinho, Portugal
g Clínica Girassol, Angola
h Sociedade Portuguesa de Cardiologia
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“Agora é preciso coragem para ter esperança.” — Mia Couto

Exmo. Senhor Editor,

A cardiologia ensina‐nos a quantificar gradientes e pressões, mas há realidades que não cabem em milímetros de mercúrio. A Missão “Coração com Moçambique 2025”, promovida pela Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC), integra uma estratégia de cooperação clínica e formativa sustentada entre Portugal e Moçambique, orientada para criação de capacidade local e continuidade assistencial. Decorreu na província de Maputo entre 27 de junho e 11 de julho de 2025, com atividade principal em Marracuene, e presença regular no Hospital Central de Maputo e na Universidade Eduardo Mondlane.

O objetivo foi tão simples quanto exigente: rastrear doença cardiovascular em populações vulneráveis e, sobretudo, capacitar equipas locais para que o impacto perdure para além de duas semanas. Este ponto — a continuidade — tornou‐se a medida mais importante do nosso trabalho, porque os doentes não regressam a casa com “um relatório”; regressam com uma vida para viver num sistema que, muitas vezes, não dispõe do mínimo necessário.

Em Marracuene, na Escola Sagrado Coração, integrados no programa PEN‐Plus para doenças crónicas não transmissíveis, realizámos rastreio ecocardiográfico a 588 crianças e adolescentes (570da 7.ª à 12.ª classe e 18 do internato), ao longo de 9 dias completos (cerca de 60 horas efetivas). Trabalhámos com sondas portáteis e postos de rastreio em salas adaptadas, com privacidade improvisada e equipamentos partilhados. Uniformizámos o rastreio de patologia cardíaca e, no que respeita à doença cardíaca reumática, aplicámos os critérios da World Heart Federation, classificando os exames como “sem alterações relevantes”, “borderline” ou “com critérios de doença cardíaca reumática”. Observámos 542 exames sem alterações relevantes, 26 borderline com indicação para reavaliação e dois achados patológicos não reumáticos (CIA ostium secundum e válvula aórtica bicúspide). Não identificámos, nesta amostra, exames com critérios de doença cardíaca reumática. A par do rastreio, a formação prática em ecocardiografia dirigida a clínicos locais foi central: cada exame futuro, por mãos treinadas no terreno, vale mais do que qualquer número registado numa missão.

No Hospital Central de Maputo houve um marco que simboliza o que estas missões podem gerar quando são desenhadas para “deixar capacidade”: a implementação da ecocardiografia transesofágica (ETE), com realização dos primeiros exames em ambulatório por equipa local apoiada no terreno, usando a sonda oferecida pela SPC. Durante a missão foram realizados 14 ETE e 63 ecocardiogramas transtorácicos (ETT). Nos ETE destacaram‐se valvulopatias reumáticas (n=5), exclusão de fonte cardioembólica (n=3), regurgitação mitral degenerativa (n=3) e cardiopatias congénitas (n=3). Nos ETT, as categorias mais frequentes incluíram valvulopatias reumáticas significativas (n=18), miocardiopatias (n=12, incluindo peripartum e padrões compatíveis com doença restritiva/fibrose endomiocárdica), doença hipertensiva do coração (n=11), doença isquémica (n=7), doença pericárdica (n=5), hipertensão pulmonar (n=4), cardiopatias congénitas não cianóticas (n=3) e endocardite infeciosa (n=3). Foram ainda implantados dois pacemakers definitivos em contexto eletivo. Realizámos quatro sessões clínicas estruturadas (hipertensão pulmonar, insuficiência cardíaca, crise hipertensiva e cardiopatias congénitas com shunt), reforçando competências e uniformizando abordagens diagnósticas e terapêuticas.

Na Universidade Eduardo Mondlane avaliámos 95 doentes (adultos e pediátricos) com exame clínico e ecocardiografia; 32 tinham ecocardiograma sem alterações relevantes, 17 achados borderline e 46 doença cardíaca estabelecida, com orientação para referenciação. A componente formativa foi diária e transversal, dirigida a médicos de Medicina Geral e Familiar, internos e estudantes (ECG, ecocardiografia à cabeceira, hipertensão arterial e suas urgências, fibrilhação auricular e cardiopatias congénitas). Realizámos também sessões no Hospital Provincial da Matola. A missão incluiu ainda a visita à Casa da Amizade para avaliação clínica e ecocardiográfica de 11 crianças vivendo com VIH, sem alterações patológicas relevantes.

Escrevemos esta carta porque a cardiologia portuguesa ganha quando olha para além das suas paredes. No terreno, a falta de recursos não é um conceito ‐ é um doente jovem com doença grave; é a decisão tomada com o que existe (e não com o que seria desejável); é a frustração de quem sabe o que poderia fazer, se tivesse meios. E é também a dignidade de equipas que, apesar de limitações estruturais, continuam a tratar, ensinar e aprender. Missões como esta não são caridade episódica; são investimento em saúde global, diplomacia científica e formação mútua. Nós ensinámos — e aprendemos — e regressámos mais competentes, mais humildes e mais responsáveis.

O futuro destas iniciativas passa por continuidade: tele‐mentoria, currículos estruturados, reforço de equipamento essencial e circuitos de referenciação que permitam que o diagnóstico se transforme em tratamento. Quando um jovem com valvulopatia avançada não chega a tempo a uma intervenção, a estatística transforma‐se em biografia, e a biografia numa perda evitável. Em 2025, voltámos com o coração cheio, mas também com um dever claro: manter a ponte viva, para que o “coração” partilhado não seja um episódio, mas um compromisso.

Financiamento

Os autores declaram não ter havido qualquer financiamento para a realização deste estudo.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não ter quaisquer conflitos de interesse relacionados com este estudo.

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